
Florbela Espanca partence à espécie de mulheres que transformam a própria feria em altar.
Esta noite sentei-me no meu sofá velho enquanto o vento atravessava lentamente as cortinas do quarto. O Rio rugia ao longe com suas luzes febris, seus bares cheios, suas almas cansadas fingindo felicidade sob néons e excessos. E eu, no meio daquela madrugada úmida, pensava em Portugal.
Pensava na charneca.
Pensava em Florbela.
Curioso como certas escritoras nunca morrem completamente. Elas continuam respirando dentro das mulheres que as leem tarde demais, intensamente demais. Talvez por isso eu sempre tenha sentido uma espécie de familiaridade dolorosa ao mergulhar nos versos dela. Como se suas palavras carregassem o perfume antigo de algo que minha alma já conhecia antes mesmo do nascimento.
Hoje decidi falar dessa conterrânea que tanto admiro.
E talvez seja impossível falar de Florbela sem falar também de melancolia.
Ela nasceu em Vila Viçosa, filha ilegítima numa época em que o mundo fazia questão de transformar origem em sentença. Cresceu entre silêncios, ausências e afetos incompletos. E penso frequentemente em como certas dores de infância nunca abandonam um escritor. Apenas mudam de roupa e passam a habitar os livros.
Florbela escrevia como quem aprende a escrever através do sofrimento.
Com uma intensidade quase imprudente.
Sua poesia sempre me pareceu febril, sensual, excessiva… como uma vela queimando rápido demais dentro de um quarto fechado. Existe algo profundamente feminino e devastador em seus sonetos. Uma fome emocional que não pede licença ao leitor. Ela amava demais, desejava demais, sofria demais. E talvez por isso continue tão viva enquanto tantos escritores tecnicamente impecáveis já foram esquecidos pela poeira do tempo.
Os grandes escritores raramente são equilibrados.
Equilíbrio demais produz textos mornos.
Enquanto lia alguns poemas dela esta madrugada, senti aquela velha inquietação silenciosa percorrendo meu corpo. A mesma sensação que tenho quando encontro escritores capazes de tocar regiões da alma que normalmente permanecem trancadas.
A solidão feminina.
O desejo impossível.
A carência de absoluto.
A busca desesperada por plenitude.
O cansaço emocional de existir intensamente dentro de um mundo incapaz de compreender certas sensibilidades.
Florbela carregava tudo isso.
E carregava com elegância.
Penso nela muitas vezes quando escrevo meus próprios sonetos durante a madrugada. A casa inteira silenciosa. O teclado iluminado como um pequeno altar eletrônico diante de mim. E então, em algum momento da noite, as palavras começam a sangrar.
Porque escrever sonetos não é apenas técnica.
É pulsação.
É música emocional presa dentro de uma estrutura rígida, tentando escapar sem perder beleza. E nisso Florbela era monstruosamente brilhante. Cada verso dela parece conter um coração batendo em desespero elegante.
Talvez eu a admire tanto porque reconheço nela algo que raramente encontro na literatura contemporânea:
Verdade emocional sem covardia.
Hoje muitos escritores escondem seus sentimentos atrás de ironias, cinismos performáticos ou experimentalismos vazios. Florbela não se escondia. Ela se oferecia inteira ao poema, mesmo sabendo que isso a destruiria lentamente.
E destruiu.
Os casamentos falhados. As desilusões amorosas. A morte brutal do irmão Apeles, despencando do céu junto de seu avião sobre o Tejo. Os abismos psicológicos crescendo silenciosamente dentro dela como raízes escuras.
Até que finalmente veio a morte.
Oficialmente um edema pulmonar.
Mas certas mulheres não morrem apenas do corpo.
Morrem também de excesso de sentimento acumulado.
Enquanto escrevo isso, a madrugada avança lentamente. Há uma vela acesa ao meu lado projetando sombras trêmulas pelas paredes do quarto. O café já perdeu temperatura. O céu começa a clarear num azul frio e melancólico que sempre me lembra Portugal.
E penso que Florbela compreenderia perfeitamente este instante.
A beleza triste das madrugadas.
O silêncio das mulheres que escrevem enquanto o mundo dorme.
A sensação de nunca pertencer completamente a lugar algum.
A estranha necessidade de transformar dor em linguagem antes que ela nos devore inteiramente.
Talvez seja isso que une certas escritoras através do tempo.
Não a nacionalidade.
Não a estética.
Não a fama.
Mas a capacidade rara de fazer da própria ruína uma forma de eternidade.
E Florbela conseguiu.
Porque algumas poetisas não são enterradas.
São semeadas.
Abaixo, seguem alguns sonetos da poetisa:

Florbela Espanca
Desejos vãos
Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu queria ser a Pedra que não pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!
Eu queria ser o sol, a luz intensa
O bem do que é humilde e não tem sorte!
Eu queria ser a árvore tosca e densa
Que ri do mundo vão é ate da morte!
Mas o mar também chora de tristeza...
As árvores também, como quem reza,
Abrem, aos céus, os braços, como um crente!
E o sol altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as pedras... essas... pisá-as toda a gente!...
* * *
Vaidade
Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!
Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo ! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!
Sonho que sou Alguém cá neste mundo ...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada!
E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho ... E não sou nada! ...
* * *
Só
Eu tenho pena da Lua!
Tanta pena, coitadinha,
Quando tão branca, na rua
A vejo chorar sozinha!...
As rosas nas alamedas,
E os lilases cor da neve
Confidenciam de leve
E lembram arfar de sedas
Só a triste, coitadinha...
Tão triste na minha rua
Lá anda a chorar sozinha ...
Eu chego então à janela:
E fico a olhar para a lua...
E fico a chorar com ela! ...
* * *
Eu...
Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho,e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...
Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...
Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...
Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!
* * *
Tédio
Passo pálida e triste. Oiço dizer
"Que branca que ela é! Parece morta!"
E eu que vou sonhando, vaga, absorta,
Não tenho um gesto, ou um olhar sequer...
Que diga o mundo e a gente o que quiser!
-O que é que isso me faz?... o que me importa?...
O frio que trago dentro gela e corta
Tudo que é sonho e graça na mulher!
O que é que isso me importa?! Essa tristeza
É menos dor intensa que frieza,
É um tédio profundo de viver!
E é tudo sempre o mesmo,eternamente...
O mesmo lago plácido, dormente,
E os dias,sempre os mesmos,a correr...