Luna Bela Morte
Scriptura aeternitatis obscurae.
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21/05/2026 06h00
Entre velas, túmulos e versos...

 

Hoje é o Dia da Língua Nacional.

E passei a madrugada pensando no peso estranho que as palavras carregam. Pequenos cadáveres sonoros capazes de atravessar séculos intactos, sobrevivendo a guerras, doenças, impérios e cemitérios. Há algo profundamente sobrenatural na literatura. Um escritor morre… mas continua sussurrando dentro da cabeça de desconhecidos muitos anos depois.

Talvez seja a forma mais elegante de assombração.

A chuva fina tamborilava contra minha janela enquanto eu organizava alguns livros antigos espalhados pela cama. O quarto estava mergulhado naquela penumbra azulada que antecede o amanhecer. Velas queimavam lentamente ao lado de uma taça esquecida de vinho escuro, e o cheiro de papel envelhecido pairava no ar como um perfume de sepultura antiga.

Foi então que pensei em Álvares de Azevedo.

Curioso como um poeta morto há mais de um século consegue parecer mais vivo do que tantas pessoas que encontro diariamente.

Vocês sabem que sou portuguesa. Cresci ouvindo sobre autores da minha terra, cercada pela melancolia marítima de nossa literatura europeia. Fernando Pessoa, Florbela, Bocage… fantasmas belíssimos acompanhando minha juventude entre noites silenciosas e bibliotecas frias.

Mas para conhecer profundamente a literatura brasileira, precisei atravessar o oceano das palavras por conta própria.

E foi nesse percurso que encontrei Álvares de Azevedo.

Ou talvez tenha sido ele quem me encontrou.

Aquele romantismo sombrio, decadente, quase vampírico. A obsessão pela morte, pela noite, pela beleza triste das coisas impossíveis. Ele escrevia como alguém que já intuía a própria brevidade. E talvez intuísse mesmo.

Nascido em 1831, sensível, brilhante e adoentado, atravessou a juventude como uma vela queimando rápido demais. Mudou-se para São Paulo para estudar Direito, mergulhou nos círculos boêmios, cercou-se de poetas, rumores satânicos, noites excessivas e lendas que o transformariam mais tarde no chamado “Byron brasileiro”.

E sinceramente?

Consigo enxergar perfeitamente o motivo.

Existe algo profundamente byroniano em homens que transformam a própria autodestruição em estética.

Mas o que mais me perturba nele não é a morbidez.

É a lucidez emocional.

Álvares compreendia a tristeza humana de maneira quase íntima demais. Como se observasse o mundo através de um véu escuro que revelava aquilo que as pessoas normais preferem ignorar.

A solidão.
O desejo impossível.
A decadência do corpo.
A beleza breve da juventude.
O fascínio silencioso da morte.

Enquanto lia alguns de seus poemas esta noite, senti aquela estranha sensação de companhia que apenas grandes escritores conseguem provocar. Como se a madrugada deixasse de ser vazia por alguns instantes.

Talvez seja isso que a literatura faz conosco.

Ela cria pontes entre cadáveres e sobreviventes.

E pensar na morte de Álvares sempre me causa desconforto. A queda do cavalo pelas ruas do Rio. O tumor rompido. A cirurgia brutal sem anestesia. Quarenta e seis dias de sofrimento até morrer jovem demais, no Domingo de Páscoa de 1852.

Vinte anos.

Apenas vinte anos.

É assustador perceber que algumas almas produzem eternidade antes mesmo de aprenderem a envelhecer.

Fiquei imaginando seu quarto nos últimos dias. Os delírios febris. O cheiro medicinal da dor. Os pensamentos atravessando a madrugada enquanto o corpo lentamente desistia da vida.

E no entanto… seus versos sobreviveram.

Talvez porque certos escritores nunca pertençam completamente ao mundo dos vivos.

Enquanto escrevo isso, o céu lá fora começa lentamente a clarear. Os primeiros ruídos da cidade atravessam a janela como pequenas agressões modernas contra o silêncio da madrugada. Caminhões. Ônibus. Pessoas correndo atrás de horários e salários enquanto poetas mortos continuam respirando dentro de livros esquecidos.

Que ironia bela e cruel.

A humanidade constrói prédios.

A literatura constrói fantasmas.

E talvez seja por isso que eu ame tanto as palavras.

Porque elas apodrecem mais lentamente do que nós.

Hoje, no Dia da Língua Nacional, decidi abrir espaço para um dos espíritos mais melancólicos que já caminharam pela literatura brasileira.

Nas próximas páginas, deixarei que Álvares de Azevedo fale.

E aconselho que o leiam à meia-noite.

Alguns poetas parecem mais sinceros quando o mundo inteiro adormece.


 

Álvares de Azevedo

 

 

Adeus, meus sonhos!

 

Adeus, meus sonhos, eu pranteio e morro!
Não levo da existência uma saudade!
E tanta vida que meu peito enchia
Morreu na minha triste mocidade!
Misérrimo! Votei meus pobres dias
À sina doida de um amor sem fruto,
E minh'alma na treva agora dorme
Como um olhar que a morte envolve em luto.
Que me resta, meu Deus?
Morra comigo
A estrela de meus cândidos amores,
Já não vejo no meu peito morto
Um punhado sequer de murchas flores!

 

* * * 

 

Lembrança de morrer
 

No more! o never more!
SHELLEY.


Quando em meu peito rebentar-se a fibra
Que o espírito enlaça à dor vivente,
Não derramem por mim nem uma lágrima
Em pálpebra demente.

E nem desfolhem na matéria impura
A flor do vale que adormece ao vento:
Não quero que uma nota de alegria
Se cale por meu triste passamento.

Eu deixo a vida como deixa o tédio
Do deserto, o poento caminheiro
— Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;

Como o desterro de minh'alma errante,
Onde fogo insensato a consumia:
Só levo uma saudade — é desses tempos
Que amorosa ilusão embelecia.

Só levo uma saudade — é dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas...
De ti, ó minha mãe, pobre coitada
Que por minha tristeza te definhas!

De meu pai... de meus únicos amigos,
Poucos — bem poucos — e que não zombavam
Quando, em noite de febre endoudecido,
Minhas pálidas crenças duvidavam.

Se uma lágrima as pálpebras me inunda,
Se um suspiro nos seios treme ainda
É pela virgem que sonhei... que nunca
Aos lábios me encostou a face linda!

Só tu à mocidade sonhadora
Do pálido poeta deste flores...
Se viveu, foi por ti! e de esperança
De na vida gozar de teus amores.

Beijarei a verdade santa e nua,
Verei cristalizar-se o sonho amigo....
Ó minha virgem dos errantes sonhos,
Filha do céu, eu vou amar contigo!

Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nelas
— Foi poeta — sonhou — e amou na vida.—

Sombras do vale, noites da montanha
Que minh'alma cantou e amava tanto,
Protegei o meu corpo abandonado,
E no silêncio derramai-lhe canto!

Mas quando preludia ave d'aurora
E quando à meia-noite o céu repousa,
Arvoredos do bosque, abri os ramos...
Deixai a lua prantear-me a lousa!

 

* * *

 

O poeta moribundo

 

Poetas! amanhã ao meu cadáver
Minha tripa cortai mais sonorosa!...
Façam dela uma corda e cantem nela
Os amores da vida esperançosa!

Cantem esse verão que me alentava...
O aroma dos currais, o bezerrinho,
As aves que na sombra suspiravam,
E os sapos que cantavam no caminho!

Coração, por que tremes? Se esta lira
Nas minhas mãos sem força desafina,
Enquanto ao cemitério não te levam,
Casa no marimbau a alma divina!

Eu morro qual nas mãos da cozinheira
O marreco piando na agonia...
Como o cisne de outrora... que gemendo
Entre os hinos de amor se enternecia.

Coração, por que tremes? Vejo a morte,
Ali vem lazarenta e desdentada...
Que noiva!... E devo então dormir com ela?
Se ela ao menos dormisse mascarada!

Que ruínas! que amor petrificado!
Tão antideluviano e gigantesco!
Ora, façam idéia que ternuras
Terá essa lagarta posta ao fresco!

Antes mil vezes que dormir com ela.
Que dessa fúria o gozo, amor eterno
Se ali não há também amor de velha,
Dêem-me as caldeiras do terceiro inferno!

No inferno estão suavíssimas belezas,
Cleópatras, Helenas, Eleonoras;
Lá se namora em boa companhia,
Não pode haver inferno com Senhoras!

Se é verdade que os homens gozadores,
Amigos de no vinho ter consolos,
Foram com Satanás fazer colônia,
Antes lá que no Céu sofrer os tolos!

Ora! e forcem um'alma qual a minha,
Que no altar sacrifica ao Deus-Preguiça,
A cantar ladainha eternamente
E por mil anos ajudar a Missa!

 

* * *

 

Se eu morresse amanhã

Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
Se eu morresse amanhã!

Quanta glória pressinto em meu futuro!
Que aurora de porvir e que manhã!
Eu perdera chorando essas coroas
Se eu morresse amanhã!

Que sol! que céu azul! que doce n'alva
Acorda a natureza mais louçã!
Não me batera tanto amor no peito
Se eu morresse amanhã!

Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o dolorido afã...
A dor no peito emudecera ao menos
Se eu morresse amanhã!

 

* * *

 

Um cadáver de poeta
 

Levem ao túmulo aquele que parece um cadáver! Tu
não pesaste sobre a terra: a terra te seja leve!
L. UHLAND.



I

De tanta inspiração e tanta vida
Que os nervos convulsivos inflamava
E ardia sem conforto...
O que resta? uma sombra esvaecida,
Um triste que sem mãe agonizava...
Resta um poeta morto!

Morrer! e resvalar na sepultura,
Frias na fronte as ilusões — no peito
Quebrado o coração!
Nem saudades levar da vida impura
Onde arquejou de fome... sem um leito!
Em treva e solidão!

Tu foste como o sol; tu parecias
Ter na aurora da vida a eternidade
Na larga fronte escrita...
Porém não voltarás como surgias!
Apagou-se teu sol da mocidade
Numa treva maldita!

Tua estrela mentiu. E do fadário
De tua vida a página primeira
Na tumba se rasgou...
Pobre gênio de Deus, nem um sudário!
Nem túmulo nem cruz! como a caveira
Que um lobo devorou!...

 


II

Morreu um trovador — morreu de fome.
Acharam-no deitado no caminho:
Tão doce era o semblante! Sobre os lábios
Flutuava-lhe um riso esperançoso.
E o morto parecia adormecido.
Ninguém ao peito recostou-lhe a fronte
Nas horas da agonia! Nem um beijo
Em boca de mulher! nem mão amiga
Fechou ao trovador os tristes olhos!
Ninguém chorou por ele... No seu peito
Não havia colar nem bolsa d'oiro;
Tinha até seu punhal um férreo punho...
Pobretão! não valia a sepultura!

Todos o viam e passavam todos.
Contudo era bem morto desde a aurora.
Ninguém lançou-lhe junto ao corpo imóvel
Um ceitil para a cova!... nem sudário!

O mundo tem razão, sisudo pensa,
E a turba tem um cérebro sublime!
De que vale um poeta — um pobre louco
Que leva os dias a sonhar — insano
Amante de utopias e virtudes
E, num tempo sem Deus, ainda crente?

(...)

Publicado por Luna Bela Morte
em 21/05/2026 às 06h00
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