
A madrugada estava úmida, silenciosa e febril.
Daquelas noites em que a cidade parece respirar lentamente pela janela, como um animal exausto tentando sobreviver ao próprio caos. O ventilador girava preguiçoso acima da minha cabeça enquanto eu deslizava o dedo pelo feed do celular, observando o desfile melancólico de egos fantasiados de genialidade.
E então encontrei os literatos ornamentais.
Criaturas curiosas.
Escrevem como quem monta um altar para si mesmos. Empilham palavras raras, expressões rebuscadas e frases tão infladas que parecem prestes a explodir antes mesmo de comunicar alguma emoção real. Alguns imitam autores famosos de maneira quase necromântica, costurando pedaços de estilos alheios sobre o próprio vazio criativo. Outros escrevem como se estivessem tentando convencer desconhecidos da internet de que possuem um intelecto inalcançável.
Mas há um detalhe perturbador nisso tudo:
Quando a vaidade entra na escrita, a alma sai pela porta dos fundos.
Fiquei lendo alguns daqueles textos na penumbra do quarto, iluminada apenas pela luz fria do celular e pelo meu abajur de caveira que "queimava" sobre minha mesa. Confesso que senti uma tristeza genuína. Não desprezo. Tristeza.
Porque muitos daqueles escritores parecem ter esquecido o motivo primordial da literatura.
Comunicação.
Sentimento.
Presença.
Eles escrevem para serem admirados. Não para serem sentidos.
E existe uma diferença brutal entre essas duas coisas.
Conheço milhares de palavras difíceis. Li centenas de livros ao longo da vida. Vivi cercada por literatura desde muito cedo. Poderia transformar meus textos em labirintos arrogantes de referências acadêmicas, simbolismos excessivos e frases inalcançáveis.
Mas para quê?
Para massagear meu ego?
Para receber comentários de meia dúzia de pseudo-intelectuais dizendo “magnífico” enquanto o leitor comum abandona o texto na terceira linha sentindo-se pequeno demais para compreendê-lo?
Isso não é arte.
É masturbação intelectual.
E quase sempre extremamente insegura.
Escrever não deveria ser um ato de exclusão. A literatura verdadeira atravessa pessoas. Ela entra pelos olhos e se espalha dentro do corpo como febre, lembrança ou maldição. Pouco importa se o leitor estudou em universidades prestigiadas ou se lê escondido durante o intervalo do trabalho.
Se o texto não alcança carne humana… ele fracassou.
Há escritores que usam palavras difíceis como castelos. Se escondem atrás delas porque têm medo de serem vistos de verdade. Medo da simplicidade. Medo da clareza. Medo de descobrirem que talvez não tenham tanto conteúdo assim sem os adornos linguísticos.
E sinceramente?
A maioria desses textos soa como um delírio desconexo escrito às três da manhã depois de vinho barato, pretensão estética e crises narcísicas mal resolvidas. A internet está cheia deles. Cemitérios inteiros de frases bonitas sem alma alguma.
Enquanto isso, as palavras mais devastadoras que já li na vida eram simples.
Diretas.
Humanas.
Porque escrever não é parecer inteligente.
Escrever é possuir coragem suficiente para arrancar algo vivo de dentro de si e entregar ao leitor sem anestesia.
Escrever é abrir o peito no escuro.
É transformar dor em linguagem.
Desejo em incêndio.
Solidão em presença.
Memória em fantasma.
Escrever é perceber beleza até na decomposição das coisas.
É ouvir o barulho emocional do mundo enquanto todos os outros estão distraídos demais para perceber.
Um verdadeiro escritor não escreve para humilhar o leitor com vocabulário ornamental.
Ele escreve para possuir o leitor emocionalmente.
Para fazê-lo sentir algo que continuará ecoando horas depois do texto terminar.
Porque no fim… palavras difíceis impressionam por alguns segundos.
Mas sentimentos verdadeiros permanecem apodrecendo docemente dentro da alma por anos.
E talvez seja exatamente isso que tantos falsos literatos jamais entenderão:
Literatura não é um desfile de inteligência.
É um ritual de permanência.