Luna Bela Morte
Scriptura aeternitatis obscurae.
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15/05/2026 06h00
A cidade enterrou o rio... e depois enterrou a si mesma.

 

Há cidades que morrem lentamente.

Não através de guerras.
Nem incêndios.
Nem tragédias anunciadas nos jornais.

Elas morrem pelo progresso.

Caminhei por ruas que um dia respiraram árvores e silêncio. Agora respiram fumaça, buzinas e pressa. O ar parecia pesado, como se a própria cidade estivesse cansada de sustentar a caricatura de riqueza que criou para si.

E enquanto eu atravessava aquele cenário de concreto e ruído, encontrei o velho de chapéu.

Ou talvez tenha encontrado o fantasma dele.

Estava sentado na calçada, imóvel, ao lado de uma carroça antiga que parecia deslocada no tempo. O cavalo marrom mantinha os olhos baixos, resignados daquela forma silenciosa que apenas os animais conhecem. Havia algo profundamente cruel naquela imagem. Não miséria exatamente… mas abandono.

O abandono produzido pela modernidade.

Fiquei observando de longe.

As pessoas passavam sem vê-lo. E isso sempre me perturba mais do que o ódio. O desprezo ainda reconhece existência; a indiferença enterra.

A cidade continuava correndo ao redor daquele homem como uma máquina descontrolada. Ônibus vomitando trabalhadores cansados. Carros importados cuspindo música alta. Homens engravatados carregando o próprio vazio em copos de café e olhares mortos.

E ali estava ele.

O velho de chapéu.

Uma ruína viva diante de uma cidade que já não tolera aquilo que não produz lucro imediato.

Soube depois que ele construiu a própria carroça com as mãos. Que trabalhava sem patrão. Que tinha terra, rio, árvores, peixes… liberdade. Palavra perigosa essa. O sistema moderno odeia profundamente qualquer ser humano que descubra como viver sem coleira.

Então a cidade cresceu.

E crescimento, quase sempre, significa assassinato disfarçado de evolução.

As árvores desapareceram primeiro. Depois o rio adoeceu. Depois vieram os prédios, os condomínios, os helicópteros, o barulho constante de uma civilização que confunde movimento com significado.

E então, inevitavelmente, veio o vazio.

Porque toda riqueza construída sobre destruição espiritual termina apodrecendo por dentro.

Parei diante de uma vitrine enquanto a chuva fina começava a cair sobre o asfalto quente. Vi meu reflexo misturado às luzes artificiais da cidade e pensei em quantas pessoas vivem exatamente assim: revestidas de brilho externo para esconder a decomposição silenciosa da alma.

As festas luxuosas.
As drogas recreativas.
Os carros enormes.
Os relógios caros.
Os sorrisos treinados.

Tudo pequenas barricadas frágeis contra o horror absoluto de perceber que se perdeu a própria paz.

E o pior é que eles sabem.

Todos sabem.

Por isso precisam de mais ruído. Mais excesso. Mais distração. O silêncio os destruiria em poucos minutos.

O velho, porém, parecia silencioso demais para este novo mundo.

Talvez por isso tenha sido expulso dele sem perceber.

Passei boa parte da tarde pensando nisso enquanto escrevia perto da janela. A cidade seguia rugindo lá fora, elétrica, frenética, desesperada para convencer a si mesma de que ainda estava viva.

Mas eu conheço cadáveres bem vestidos quando os vejo.

E há algo morto nessas cidades modernas.

Algo que não volta mais.

Talvez seja a dignidade. Talvez seja a contemplação. Talvez seja simplesmente a capacidade humana de existir sem transformar tudo em mercadoria.

Quando anoiteceu, ouvi um helicóptero cruzando o céu escuro. O som atravessou o quarto como uma lâmina. Fechei os olhos por um instante e imaginei o velho de chapéu olhando para cima, tentando falar com Deus… e recebendo apenas hélices como resposta.

Que símbolo brutal do nosso tempo.

Agora escrevo estas últimas linhas com a sensação amarga de quem testemunhou um funeral que ninguém percebeu acontecer.

A cidade continua rica.

Os bares continuam cheios.

As luzes continuam acesas.

Mas o rio morreu.
As árvores morreram.
O silêncio morreu.

E talvez o mais trágico de tudo seja isto:

As pessoas ainda chamam isso de progresso.

Publicado por Luna Bela Morte
em 15/05/2026 às 06h00
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