
Há noites em que sinto Outubro se aproximando antes mesmo do calendário admitir sua existência.
Ele vem devagar.
Como um perfume antigo infiltrando corredores fechados. Como dedos frios tocando a nuca enquanto a cidade continua distraída demais para perceber que algo desperta nas sombras.
Hoje foi uma dessas noites.
Passei horas cercada de papéis, anotações, símbolos rabiscados às pressas, páginas manchadas de café e velas queimando até deformarem a própria cera como corpos em ritual. Meu apartamento parecia menos um lar… e mais um altar improvisado para alguma entidade literária faminta.
E talvez seja exatamente isso que esteja acontecendo.
No próximo dia 17 começarei oficialmente os preparativos para o Halloween da Luna 2026.
Escrever isso me provoca um tipo estranho de vertigem.
No ano passado, quando decidi abrir as portas daquele evento literário para meus leitores, imaginei algo pequeno. Íntimo. Talvez apenas algumas almas noturnas reunidas em torno do mesmo fascínio pela beleza obscura.
Mas então aconteceu.
As mensagens chegaram. Os relatos. As fotos dos livros espalhados por quartos silenciosos, velas acesas, olhares cansados de realidade demais. Pessoas encontrando umas às outras através da escuridão que compartilham.
E percebi algo perigoso:
A literatura, quando encontra os leitores certos, deixa de ser entretenimento.
Ela vira invocação.
Este ano será diferente.
Maior.
Mais profundo.
Mais próximo daquilo que sempre imaginei quando comecei a escrever sob madrugadas febris, acreditando que certas histórias não deveriam apenas ser lidas… mas atravessadas.
Porque em Outubro acontecerá o lançamento oficial de O Grimório de Nyxara.
E confesso: há algo nesse livro que me inquieta.
Nyxara não nasceu como personagem comum. Algumas figuras surgem da imaginação; outras parecem emergir de lugares mais antigos, como se apenas utilizassem o escritor para atravessar até o mundo físico. Enquanto escrevia sua peregrinação até o Templo dos Vampiros, senti inúmeras vezes aquela desconfortável impressão de que eu não estava criando algo.
Estava registrando.
O grimório dela cresceu assim: alimentado por símbolos ancestrais, práticas vampíricas, fragmentos filosóficos escondidos em tradições esquecidas e rituais que carregam o cheiro úmido de criptas antigas. Não como fantasia vazia… mas como literatura construída sobre ruínas reais.
Talvez por isso o livro me pareça vivo às vezes.
E livros vivos exigem consequências.
Neste Halloween, dez exemplares físicos serão entregues aos escolhidos entre os membros do Oráculo da Luna. Gosto da palavra “escolhidos”. Ela carrega uma falsa sensação de privilégio… quando na verdade toda escolha profunda cobra algo em troca.
Os sorteios acontecerão como pequenos pactos silenciosos espalhados ao longo de Outubro, culminando na noite de 31 de outubro de 2026, quando os nomes finalmente serão revelados.
Mas há outra novidade que me toca de forma ainda mais íntima.
Cinco autores atravessarão comigo as páginas deste grimório.
Cinco pessoas decidiram olhar para Nyxara e responder ao chamado usando aquilo que possuem de mais perigoso: a própria imaginação. Seus contos integrarão oficialmente a obra, como pequenas oferendas deixadas diante de um altar obscuro.
Acho belo isso.
A ideia de escritores reunidos não por vaidade… mas pela necessidade quase doentia de transformar sombra em linguagem.
Hoje, enquanto organizava tudo isso, senti um cansaço estranho misturado a excitação. Como se estivesse preparando não um evento… mas uma cerimônia.
E talvez seja exatamente isso.
Porque Halloween nunca foi sobre fantasias para mim.
Sempre foi sobre véus.
Sobre a breve rachadura entre aquilo que o mundo permite enxergar… e aquilo que ele tenta desesperadamente esconder.
Lá fora, a cidade continua acesa, barulhenta, banal. Pessoas atravessando suas rotinas sem imaginar que Outubro já começou a respirar em algum lugar oculto desta noite.
Mas você sabe agora.
E, depois de saber… certas portas começam a aparecer em sonhos.
As regras completas serão reveladas neste domingo, dia 17, em:
aprendizdastrevas.com
Mas pense bem antes de atravessar.
Porque algumas histórias não terminam quando o livro se fecha.
Elas apenas começam a observar você de volta.