Luna Bela Morte
Scriptura aeternitatis obscurae.
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09/05/2026 08h00
Onde a neblina europeia aprendeu a falar português

 

9 de maio.

Hoje é o Dia da Europa.

 

Curioso pensar nisso enquanto caminho pelas ruas frias de Nova Friburgo, cercada por montanhas que parecem esconder segredos antigos sob suas névoas delicadas. Há cidades que pertencem ao Brasil apenas por acidente geográfico. Friburgo é uma delas. Ela respira diferente. Anda diferente. Silencia diferente.

O clima daqui não toca apenas a pele.

Ele toca a memória.

Passei a tarde observando os telhados inclinados, os jardins úmidos, as fachadas que ainda carregam o fantasma elegante de outro continente. Em certos momentos, quase me esqueço de onde estou. Há algo profundamente europeu nesta cidade serrana; não como imitação vulgar, mas como herança melancólica. Como uma cicatriz cultural que o tempo decidiu preservar.

Talvez por isso eu me sinta tão confortável aqui.

Sou feita de travessias.

França no sangue materno. Espanha queimando discretamente nas raízes do meu sobrenome antigo. Portugal ainda ecoando nos corredores da minha memória. E agora o Brasil, este país febril e contraditório, me acolhendo como quem acolhe uma criatura deslocada que nunca encontrou exatamente um lar.

Nova Friburgo entende isso.

Ela também é feita de deslocamentos.

Suíços que chegaram tentando reconstruir vida entre montanhas desconhecidas. Alemães trazendo suas sombras disciplinadas. Italianos, austríacos, húngaros… povos inteiros carregando saudade em navios, atravessando oceanos como quem transporta pequenas ruínas dentro do peito.

E no fim… deixaram algo aqui.

Não apenas arquitetura. Não apenas gastronomia. Deixaram ausência.

E toda cidade construída sobre ausência desenvolve uma beleza particular.

Em alguns locais, o cheiro de madeira antiga preenche o ambiente com uma espécie de conforto que quase me constrange. Quase. Observei casais dividindo fondue, turistas sorrindo diante do frio, vozes baixas ecoando como se todos soubessem, intuitivamente, que esta cidade exige delicadeza.

Mas eu sei que por trás da delicadeza existe outra coisa.

Sempre existe.

As montanhas guardam silêncio demais para serem inocentes.

Enquanto bebia lentamente um café, pensei nos imigrantes que chegaram aqui no século XIX. Quantos deles perceberam, no instante em que desceram suas malas, que jamais voltariam a ser os mesmos? Quantos morreram internamente antes mesmo de aprender a chamar este lugar de casa?

A migração é uma forma lenta de fantasmagoria.

Você continua vivo… mas parte de você permanece vagando no lugar que deixou para trás.

Talvez seja por isso que escrevo tanto sobre memória. Porque toda memória é um território abandonado que continua exigindo visita.

Aqui anoitece cedo.

As luzes da cidade começam a acender como pequenas vigílias contra a escuridão das montanhas. Caminhei pela Praça Getúlio Vargas observando os eucaliptos antigos balançarem lentamente sob o vento. Havia algo quase litúrgico naquele movimento. Como se as árvores soubessem mais sobre o tempo do que nós jamais saberemos.

E então senti aquela velha inquietação.

A sensação de não pertencer completamente a lugar algum… e, ao mesmo tempo, pertencer um pouco a todos os lugares assombrados pela melancolia.

Nova Friburgo me devolveu isso hoje.

A percepção de que identidade não é raiz.

É neblina.

Algo que muda de forma conforme atravessa novos territórios.

Ontem voltei para o quarto carregando o cheiro das árvores nas roupas e um silêncio confortável dentro do peito. Acendi uma vela perto da janela. Observei a névoa engolindo lentamente as luzes da cidade. E escrevi estas linhas enquanto a noite fazia aquilo que sempre faz melhor:

Transformar distância em beleza.

Talvez seja esse o verdadeiro legado europeu que sobrevive aqui.

Não os prédios.
Não os nomes.
Não os costumes.

Mas essa habilidade antiga de encontrar poesia mesmo dentro da saudade.

Publicado por Luna Bela Morte
em 09/05/2026 às 08h00
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