Luna Bela Morte
Scriptura aeternitatis obscurae.
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07/05/2026 08h00
O barulho que sangra... e o silêncio que devora.

 

 

7 de maio.

Hoje o mundo tenta, pela primeira vez em muito tempo, ouvir aquilo que sempre evitou.

O silêncio.

 

Engraçado… precisam de uma data para lembrar algo que deveria ser instintivo. Como se a ausência de ruído fosse um luxo, e não uma necessidade vital. Como se o caos sonoro fosse apenas incômodo; e não uma forma lenta de violência.

Acordei com buzinas.

Sempre assim.

O Rio não desperta; ele explode em si mesmo todas as manhãs. Motores, vozes, construções, músicas que não pedem consentimento. Um desfile constante de sons que não comunicam nada… apenas ocupam espaço.

Fiquei deitada alguns minutos, ouvindo esse excesso.

E pensando.

O barulho não é apenas externo. Esse é o erro mais comum. As pessoas acreditam que o problema está na rua, nos carros, nas obras. Mas o ruído mais insuportável… vem de dentro.

É a mente que não se cala.

É a repetição de pensamentos que ninguém escolheu ter. É a memória insistente, o arrependimento, o desejo mal resolvido; todos competindo por atenção, todos falando ao mesmo tempo.

E então o mundo lá fora apenas acompanha.

Levantei devagar. Fechei as janelas. Não para bloquear o som (isso seria inútil), mas para criar a ilusão de que ainda é possível algum tipo de controle.

Preparei café. Sentei diante do caderno. E esperei.

O silêncio não vem fácil.

Ele não é ausência. É confronto.

Quando o ruído cessa, algo se revela. E nem sempre é bonito. Às vezes, é exatamente aquilo que você vinha evitando encarar desde sempre.

Pensei nisso hoje.

No quanto as pessoas fogem do silêncio como se ele fosse um inimigo. Preenchem cada espaço com música, conversas, distrações… qualquer coisa que impeça o encontro consigo mesmas.

Mas o silêncio… ele não esquece.

Ele apenas espera.

Lembrei de Nyepi, aquele dia em Bali em que tudo para. Nenhuma luz. Nenhum som. Nenhum movimento. Um mundo inteiro suspendendo sua própria existência por um instante.

E me perguntei:

Quantos sobreviveriam a isso?

Quantos suportariam um dia inteiro sem se anestesiar?

Aqui, no meu pequeno território de sombras, tentei algo parecido. Desliguei tudo. Nenhuma música. Nenhuma tela. Apenas o som leve da minha própria respiração; irregular, quase desconfiada.

E então… começou.

As imagens vieram. Lentas. Precisas. Como se estivessem aguardando essa brecha. Memórias que não pedi. Sensações que ainda carregam temperatura. Fragmentos de quem fui… e de quem continuo sendo, apesar de tudo.

O silêncio não me acalmou.

Ele me revelou.

E há uma diferença brutal entre essas duas coisas.

Escrevi por horas. Não porque quis. Mas porque não havia para onde fugir. Cada palavra era uma tentativa de organizar o que emergia. Uma tentativa falha, talvez… mas necessária.

Porque escrever, no fundo, é isso:

Dar forma ao que o silêncio expõe.

Lá fora, o mundo continuava ruidoso. Sempre continuará. As pessoas não vão parar. Não vão ouvir. Não vão mudar.

Mas aqui dentro… algo se reorganizou.

Não em paz.

Mas em verdade.

A noite chegou como sempre chega; sem pedir licença, mas trazendo consigo uma certa dignidade que o dia insiste em ignorar. E agora, enquanto termino estas linhas, percebo algo que talvez você também já tenha sentido:

O silêncio não é vazio.

Ele é um espaço onde tudo o que você é… finalmente ganha voz.

E a maioria não está pronta para ouvir.

Mas você leu até aqui.

Então talvez… já esteja mais próximo disso do que imagina.

Publicado por Luna Bela Morte
em 07/05/2026 às 08h00
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