Luna Bela Morte
Scriptura aeternitatis obscurae.
Capa Meu Diário Textos Áudios E-books Fotos Perfil Livros à Venda Livro de Visitas Contato Links
05/05/2026 08h00
A chuva que lava... e aquela que apenas revela.

 

Ontem choveu como se o céu tivesse finalmente perdido a paciência.

Hoje acordei com o som abafado das gotas se espalhando pela cidade, não como um espetáculo, mas como uma insistência. Uma repetição hipnótica, quase íntima. Há algo de profundamente perturbador na chuva: ela não pede licença. Invade. Toca. Persiste.

Fiquei algum tempo na cama, ouvindo.

Não o barulho… mas o que existe por trás dele.

Porque a chuva nunca é só água.

Ela é memória líquida.

Levantei quando o quarto já estava impregnado por aquela luz cinza que não ilumina; apenas revela contornos. Abri a janela e deixei o ar úmido entrar, frio o suficiente para tocar a pele como um aviso.

A cidade parecia diferente.

Não mais limpa; isso é uma ilusão que as pessoas gostam de alimentar. A chuva não purifica. Ela apenas desloca a sujeira. Empurra o caos para outro canto, onde ele continua existindo… mais silencioso, talvez, mas intacto.

E ainda assim… há beleza nisso.

Sempre há.

Passei a manhã entre páginas e pensamentos, com o caderno aberto e a mente vagando por lugares que não costumo visitar quando o sol está alto. A chuva tem esse efeito. Ela amolece as defesas. Faz com que certas imagens retornem; não como lembranças… mas como invasões.

As cavernas do coração, como alguém já disse um dia, não são feitas de vazio.

São feitas de acúmulo.

E quando chove, algo nelas escorre.

Senti isso hoje.

Uma espécie de pressão interna, como se emoções antigas (mal enterradas) decidissem subir à superfície. Não com violência. Mas com persistência. Como a água infiltrando uma parede até fazê-la ceder.

Olhei pela janela.

Do outro lado da cidade, outras vidas se desenrolavam sob a mesma chuva. Pessoas frustradas porque seus planos foram interrompidos. Viagens canceladas. Praias vazias. Corpos que não puderam se exibir sob o sol que tanto veneram.

Há algo quase irônico nisso.

A natureza, por um instante, negando espetáculo aos que vivem de aparência.

E ainda assim… eles não aprendem.

Nunca aprendem.

A chuva não os transforma. Apenas os irrita.

Porque transformação exige silêncio. E poucos suportam o silêncio sem tentar preenchê-lo com ruído.

Voltei ao meu caderno.

Escrevi algumas linhas. Rasguei outras. Deixei que a tinta escorresse levemente sob a umidade do ar; como se até as palavras quisessem se dissolver hoje.

Pensei na sujeira.

Não aquela visível. Não o lixo acumulado nas ruas, nem os restos que a água arrasta sem cerimônia. Pensei na outra. Aquela que não se move com a chuva. Aquela que permanece.

A que vive nas pessoas.

Nos hábitos. Nos pensamentos. Na forma como consomem o mundo e devolvem algo ainda mais vazio.

E, por um instante, senti um certo cansaço.

Não da chuva.

Mas da repetição.

Da constância com que o caos se reinventa, mesmo quando tudo ao redor tenta apagá-lo.

A tarde escureceu mais cedo, como se o dia tivesse desistido de cumprir seu ciclo. E eu, de certa forma, compreendi.

Há dias que não foram feitos para terminar bem.

Foram feitos apenas para existir.

E deixar marcas.

Agora, enquanto escrevo, a chuva continua. Mais suave. Quase um sussurro.

Mas sei que ela não trouxe paz.

Trouxe exposição.

Porque no fim…
a chuva não lava o mundo.

Ela apenas revela aquilo que já estava podre; esperando o momento certo para emergir.

E talvez seja por isso que eu gosto tanto dela.

Porque, assim como a escrita…
ela não tem compromisso com o conforto.

Apenas com a verdade.

 

Publicado por Luna Bela Morte
em 05/05/2026 às 08h00
Copyright © 2026. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.