
3 de maio.
Alguns lugares não foram feitos para abrigar arte.
Foram feitos para conter aquilo que escapa dela.
Semana passada atravessei os dias com uma inquietação específica; dessas que não se explicam, apenas conduzem. Quando percebi, meus passos já me levavam ao Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Como se algo antigo, datado de 1948, ainda me chamasse pelo nome.
A ata de sua fundação foi assinada há décadas… mas certas assinaturas não envelhecem. Elas continuam ecoando, como um pacto firmado entre o tempo e a necessidade humana de criar sentido onde não há.
Entrei.
O espaço me recebeu com aquele silêncio peculiar dos lugares que já testemunharam demais. O concreto de Affonso Eduardo Reidy não é frio; é honesto. Ele não tenta seduzir. Apenas sustenta. Como se dissesse: “traga sua inquietação, eu cuido do resto”.
Caminhei devagar.
Obras penduradas como órgãos expostos. Fotografias que não pedem compreensão, apenas permanência. Estruturas que parecem ter sido construídas não para serem vistas… mas para serem sentidas no corpo, como uma presença incômoda.
E ali, entre formas e vazios, pensei na origem de tudo isso...
* * *
Pós-guerra.
Um mundo tentando se reorganizar depois de provar o próprio gosto da destruição. E, no meio disso, alguém decide criar um espaço para a arte moderna. Como se dissesse: “já que não conseguimos evitar o caos… vamos ao menos dar forma a ele”.
Há algo de profundamente humano nisso.
E profundamente inútil também.
Mas é exatamente essa inutilidade que salva.
Passei a mão sobre uma superfície áspera de uma das obras. Não deveria. Não era permitido. Mas a arte, quando é real, pede transgressão. Ela não quer ser observada à distância segura. Ela quer invadir.
Assim como a escrita.
Assim como tudo que importa.
Sentei por um tempo, observando outras pessoas atravessarem o espaço. Algumas fingiam entender. Outras fingiam sentir. A maioria apenas passava. Como quem visita um lugar sem jamais realmente entrar.
E então percebi: o museu não é um abrigo para a arte.
É um filtro.
Ele revela quem está disposto a ser tocado… e quem prefere continuar intacto.
Voltei para casa ao cair da noite, carregando comigo aquela sensação de que algo havia sido deslocado. Não em mim como indivíduo… mas na forma como percebo aquilo que faço.
Porque escrever, no fundo, não é diferente do que vi hoje.
É tentativa.
É ruína organizada.
É gesto inútil que insiste em permanecer.
Acendi uma vela. Abri meu caderno. E por um instante, hesitei.
Porque depois de caminhar entre obras que atravessaram décadas, qualquer palavra parece pequena demais. Insuficiente. Quase ridícula.
Mas ainda assim… escrevi.
Porque há algo que nem museus, nem guerras, nem o tempo conseguem conter:
A necessidade de deixar marcas.
E talvez seja isso que me une àqueles que, em 1948, decidiram fundar algo que ainda pulsa.
Não a arte em si.
Mas o impulso.
A falha bela de tentar eternizar o que nasceu para desaparecer.
A noite toma o céu por completo em meus devaneios. E eu continuo aqui, entre o silêncio e a linguagem, tentando dar forma a algo que escapa a cada linha.
Talvez seja esse o único trabalho que me interessa.
E talvez… seja o único que ainda vale a pena.