Luna Bela Morte
Scriptura aeternitatis obscurae.
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01/05/2026 11h30
O ofício de sangrar em silêncio

1º de maio.

O mundo acorda falando de trabalho.
Planilhas, cansaço, produtividade… esse culto moderno à exaustão que as pessoas insistem em chamar de dignidade.

Mas há algo mais hoje. Algo que passa despercebido pela maioria; como quase tudo que realmente importa.

Hoje também é o Dia da Literatura Brasileira.

E isso… isso me interessa.

Acordei tarde, como sempre. O sol já alto, invadindo o quarto sem ser convidado, como um intruso vulgar. Afastei a luz com as cortinas, devolvendo o ambiente ao estado que me pertence: meia-sombra, silêncio, respiração contida.

Fiquei alguns minutos imóvel, encarando o teto, como se esperasse que algum pensamento digno viesse até mim. Não veio.

Então levantei.

Ser escritora não tem nada de romântico; apesar do que insistem em repetir. Não é sobre inspiração divina ou momentos de beleza etérea. É trabalho. Mas não esse trabalho que se mede em horas. É um tipo mais insidioso.

Escrever é um labor que corrói.

Você senta diante de si mesmo e começa a escavar. E cava fundo o suficiente até encontrar algo que preferia não ter visto. E então… transforma isso em linguagem. Organiza o caos. Dá forma ao que deveria permanecer disforme.

José de Alencar nasceu em um dia como este.

Curioso, não?

Enquanto o mundo celebra o esforço físico, a produção visível, alguém decidiu também marcar a existência de um homem que trabalhou com o invisível. Que construiu não com as mãos… mas com a palavra.

Iracema. O Guarani. Senhora.

Obras que ainda respiram.

E isso me faz pensar no tipo de permanência que escolhemos.

Passei a tarde relendo trechos antigos. Não por nostalgia (isso seria um erro), mas por reconhecimento. Há algo na literatura brasileira que pulsa de forma própria. Uma identidade que não pede aprovação. Que não se curva.

E, ainda assim, é constantemente ignorada.

Como tudo que não grita.

Ao cair da noite, vou acender uma vela. Não por ritual. Mas porque gosto da forma como a chama hesita. Como se também estivesse pensando em desistir, mas continuasse ali… por teimosia.

Vou abrir meu caderno.

E irei escrever.

Escrever como quem cumpre uma função inevitável. Como quem aceita que esse é o único tipo de trabalho que faz sentido: transformar a própria inquietação em algo que atravesse o outro.

Porque, no fim… é isso.

Escrever não é produzir conteúdo.

É contaminar.

É deixar marcas.

É fazer com que alguém, em algum lugar, pare por um instante e sinta algo que não estava preparado para sentir.

E você… que lê isso agora… já está envolvido.

Talvez não perceba ainda.

Mas a literatura tem esse efeito tardio. Ela se instala devagar. Como uma presença discreta… até que se torna impossível ignorá-la.

Hoje, entre o Dia do Trabalho e o da Literatura, fico com essa conclusão incômoda:

Alguns trabalham para sobreviver.

Outros… escrevem para não desaparecer.

Se quiser conhecer aquilo que tenho construído nesse ofício silencioso; não espere encontrar conforto. Mas talvez encontre algo mais raro:

Verdade.

👉 aprendizdastrevas.com

E uma vez que ela te encontre…
não há feriado que te devolva à ignorância anterior.

Publicado por Luna Bela Morte
em 01/05/2026 às 11h30
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