
29 de abril.
Dizem que hoje se celebra a dança.
Como se o corpo precisasse de autorização para se mover… como se o gesto precisasse de calendário para existir.
Acordei tarde, ou cedo demais para quem nunca dorme por completo. Havia um peso leve no ar, desses que antecedem algo que ainda não tem nome. Abri a janela e deixei o Rio entrar: barulho, calor, respiração desordenada. A cidade dança o tempo todo, mesmo quando insiste em chamar isso de sobrevivência.
Passei o dia com uma inquietação estranha nos músculos.
Não era cansaço.
Era impulso.
Como se algo dentro de mim quisesse se expressar sem palavras; o que, confesso, me incomoda. Sempre confiei mais no verbo do que no corpo. Palavras são lâminas precisas. O corpo… o corpo é um território mais perigoso. Ele revela antes que você decida.
Talvez por isso a dança me fascine.
E me irrite.
Pensei em Jean-Georges Noverre, esse homem que ousou transformar o balé em narrativa, dar intenção ao movimento, fazer do corpo uma linguagem. Há algo de profundamente subversivo nisso. Tirar o gesto da ornamentação… e colocá-lo no campo da verdade.
Porque quando alguém dança de verdade; não para ser visto, mas para se esvaziar, algo se rompe.
E o que escapa… não volta.
À noite, fui até um pequeno teatro. Nada grandioso. Nada digno de aplausos vazios. Um espaço íntimo, onde o suor ainda tem cheiro e o erro ainda é permitido. Sentei no fundo, como convém a quem observa melhor nas sombras.
Os corpos no palco não eram perfeitos.
Graças a tudo que ainda pulsa neste mundo.
Havia tremor, havia hesitação, havia uma beleza desconfortável na forma como se moviam; como se cada passo fosse uma tentativa de dizer algo que não cabia mais dentro deles. E ali, naquele instante, entendi.
Dançar é uma forma de exorcismo.
Assim como escrever.
Ambos exigem entrega. Ambos expõem. Ambos deixam resíduos.
Enquanto assistia, pensei nas minhas próprias coreografias invisíveis. Nos rituais que repito ao escrever. Na forma como minha mão percorre o papel como se seguisse uma partitura que ninguém além de mim escuta.
Talvez eu também dance.
Mas com palavras.
Cada verso é um movimento. Cada pausa, uma respiração contida. Cada texto, uma apresentação silenciosa onde o público… é você.
E você nem sempre percebe o que está assistindo.
Há dias em que escrevo com delicadeza.
Hoje não.
Hoje escrevo com o peso de quem sabe que o corpo também guarda memórias. Que cada gesto é um arquivo vivo. Que cada escolha (até a mais sutil) deixa marcas na carne do tempo.
Voltei para casa com essa sensação grudada na pele.
Tirei os sapatos. Deixei a música baixa preencher o espaço. E, por um instante, quase cedi.
Quase deixei o corpo conduzir.
Mas então sentei. Abri o caderno. E fiz o que sempre faço: traduzi o indizível em linguagem. Transformei movimento em palavra. Dança em permanência.
Talvez seja essa a minha forma de sobreviver ao excesso.
Não dançando.
Mas escrevendo até que o corpo se cale.
Ainda assim… há algo que permanece inquieto.
Porque no fundo, eu sei:
Existem verdades que só o corpo consegue dizer.
E quando elas vierem… não haverá verso capaz de contê-las.