
26 de abril.
Existem datas que não passam.
Elas permanecem… como radiação.
Hoje o mundo finge lembrar de Chernobyl. Publicam números, repetem fatos, prestam homenagens com a delicadeza artificial de quem toca um cadáver usando luvas. Mas eu sei (e você também deveria saber) que certos desastres não pertencem ao passado. Eles continuam acontecendo, lentamente, dentro daquilo que fingimos ser seguro.
Passei a manhã em silêncio.
Não por respeito protocolar, mas porque há tragédias que exigem escuta. Escutei o vento atravessando a janela como se carregasse ecos de um lugar onde o tempo parou de obedecer. Imaginei o reator 4 abrindo seu ventre luminoso naquela madrugada de 1986… não como um erro, mas como uma revelação.
O homem nunca soube lidar com o que cria.
Sempre foi assim.
Constrói deuses com as próprias mãos… e depois se assusta quando eles respondem.
A explosão não foi apenas física. Foi simbólica. Um rasgo na ilusão de controle. Uma ferida invisível que se espalhou por corpos, por árvores, por gerações inteiras. A morte ali não foi imediata para todos. Foi lenta. Paciente. Elegante até.
Como certas verdades.
Caminhei esta manhã, deixando a cidade me envolver com seu caos habitual. O Rio segue vivo, ruidoso, pulsante; ignorante de que também carrega suas próprias formas de contaminação. Não radioativas… mas igualmente corrosivas.
Observei as pessoas.
Elas sorriem, trabalham, se tocam… sem perceber o quanto estão expostas. Não à radiação de Chernobyl, mas à repetição. À negação. À escolha constante de não ver.
E talvez seja isso que mais me inquieta.
O desastre não foi apenas um evento.
Foi um espelho.
Voltei para casa quando o dia já se insinuava como uma promessa inevitável. Acendi uma luz baixa. Abri meu caderno. E, por um instante, hesitei.
Porque escrever também é perigoso.
Cada palavra que registro é uma forma de exposição. Eu mesma me torno reator (instável, carregada de matéria sensível, à beira de liberar algo que não pode ser contido depois de revelado.).
Talvez por isso eu entenda, de forma quase íntima, o que aconteceu ali.
Não em escala. Mas em essência.
O excesso.
A falha.
A consequência inevitável de brincar com forças que exigem respeito.
Hoje não escrevo para consolar.
Escrevo para lembrar.
Que nem tudo que mata é visível.
Que nem toda destruição acontece de uma vez.
E que algumas zonas contaminadas… parecem normais à primeira vista.
Mas não são.
Nunca foram.
E, no fundo, todos nós carregamos pequenas Chernobyls internas; áreas interditadas, memórias que evitamos tocar, emoções que vazam lentamente e alteram tudo ao redor.
A diferença é que não há evacuação possível.
O céu caiu por completo agora. E há uma beleza estranha nisso. Uma beleza que não pede aprovação. Apenas existência.
Talvez seja isso que me mantém escrevendo.
A necessidade de iluminar (ainda que brevemente) aquilo que insiste em permanecer oculto.
—

A cidade fantasma de Pripyat, agora usada para estudar os padrões de precipitação radioativa, fica a menos de 3km do reator nuclear de Chernobyl. O reator que falhou no histórico acidente foi construído na década de 1970 para a equipe da usina. Os 50 mil habitantes de Pripyat foram evacuados 36 horas após o acidente.