
Fim de tarde.
Aquele instante em que o céu parece hesitar entre viver e morrer.
Sentei-me diante do mar como quem se coloca diante de um confessor antigo; não por fé, mas por cansaço. O horizonte sangrava em tons diluídos, e o sol descia lentamente, como se tivesse vergonha de permanecer entre nós.
Há algo no mar que me perturba.
Ele nunca guarda nada. Apenas engole… e depois devolve, deformado, salgado, irreconhecível. Talvez por isso eu confie mais nos cemitérios. Eles sabem manter silêncio. Já o mar… o mar sussurra demais.
Fiquei ali, observando.
Casais caminhavam como se o amor fosse suficiente. Crianças corriam sem saber que a inocência é uma fase terminal. E eu, imóvel, sentia aquela familiar distância entre mim e o resto do mundo; como se estivesse sempre um passo fora da realidade, olhando tudo através de um véu fino de estranhamento.
O vento trouxe memórias que eu não pedi.
Rostos. Toques. Palavras que ainda ecoam como promessas quebradas. Tudo aquilo que um dia foi vivo e agora existe apenas como resíduo emocional. Engraçado como certas lembranças não morrem… apenas aprendem a se esconder melhor.
E então pensei naquilo que faço.
Escrever não é um gesto bonito. É uma forma de necromancia. Eu trago de volta o que deveria permanecer enterrado. Dou voz ao que apodrece em silêncio. Transformo ausência em presença; e pago o preço disso todas as noites.
Mais cedo, antes de vir até aqui, embalei mais alguns exemplares de Poesia para ser lida no cemitério. Eles estavam alinhados sobre a mesa, silenciosos, como pequenas urnas esperando destino.
Enviei cada um pelo correio.
Gosto de imaginar esse percurso. Meus livros atravessando o país enquanto eu permaneço aqui, à beira de um mar que não sabe guardar segredos. Eles seguem viagem como mensagens seladas… carregando dentro de si aquilo que eu nunca diria olhando nos olhos de alguém.
E você que já recebeu o seu (ou que ainda está esperando) faz parte disso agora.
Há algo profundamente íntimo em permitir que minhas palavras entrem na sua casa. Talvez na sua noite. Talvez no exato momento em que você estiver mais vulnerável, mais aberto… mais real.
Você não comprou apenas um livro.
Você aceitou carregar um fragmento daquilo que me atravessa.
O sol desapareceu por completo. A noite começa a se erguer com aquela elegância inevitável, como uma rainha que não precisa anunciar sua chegada. E eu continuo aqui, sentindo o peso suave de existir entre dois mundos: o que se vê… e o que se sente.
Talvez seja por isso que escrevo.
Porque o mar devolve.
Mas eu… eu transformo.
Se ainda não atravessou esse território, ainda há tempo; embora eu não recomende esperar demais:
Algumas leituras não afogam.
Mas também não permitem que você volte à superfície o mesmo.