
Hoje é dia do Infectologista.
Engraçado como o mundo cria especialistas para conter aquilo que, no fundo, deseja secretamente sentir. Vírus, febres, contágios… tudo aquilo que invade, altera, transforma. Tudo aquilo que rompe a ilusão de controle.
E eu…
bem, eu já estou contaminada há muito tempo.
Escrevo isso da penumbra de uma boate, com o corpo levemente dissolvido em luzes vermelhas e batidas que parecem um coração artificial tentando me ressuscitar. O ar é denso. Quente. Carregado de perfumes doces demais e intenções mal resolvidas.
Sim, estou chapada.
Mas não da forma vulgar que esperam.
Estou chapada de excesso. De estímulo. De gente tentando esquecer quem é enquanto dança como se pudesse escapar da própria pele. Estou chapada da noite, que me entra pelos poros como uma doença antiga, dessas que não se curam, apenas se aprendem a cultivar.
Observo.
Sempre observo.
Os corpos se tocam sem se encontrar. Os olhos se cruzam sem se reconhecer. Há uma fome aqui, mas não é de prazer. É de anestesia. E talvez seja isso que mais me fascine: a forma como os vivos se comportam quando estão desesperados para não sentir.
Hoje, ironicamente, pensei nos infectologistas enquanto via tudo isso. Profissionais dedicados a conter invasores invisíveis… enquanto ninguém parece interessado em tratar aquilo que realmente corrói por dentro.
Porque existem contaminações que não aparecem em exames.
E eu escrevo sobre elas.
Mais cedo, antes de me perder nesse ritual noturno, passei horas enviando meus livros. Poesia para ser lida no cemitério seguia seu caminho, cuidadosamente embalado, como um agente silencioso prestes a se infiltrar em novas mentes.
Talvez seja isso que eu faça.
Infecto.
Não com doença, mas com lucidez.
Cada página carrega um tipo de febre. Um desconforto que começa sutil, quase imperceptível… e então cresce, se espalha, até que o leitor já não consegue mais olhar para si mesmo da mesma forma.
E você que comprou meu livro (sim, você) já foi exposto.
Talvez ainda não saiba. Talvez os sintomas estejam incubados, esperando o momento certo para emergir. Mas acredite… eles vêm.
E quando vierem, não haverá médico que traduza o que está acontecendo dentro de você.
A boate pulsa. Alguém ri alto demais ao meu lado. Outro alguém beija como se estivesse afogando um silêncio insuportável. E eu continuo aqui, no meio desse caos, perfeitamente consciente da minha própria contaminação.
Eu escolhi isso.
Escolhi sentir demais. Ver demais. Escrever demais.
Porque, no fim, é a única forma de não apodrecer em vida.
Quando saio daqui, levo comigo o eco dessas pessoas, dessas luzes, dessas mentiras dançantes… e transformo tudo em palavra. Em algo que sobrevive. Em algo que alcança você, mesmo que você finja não querer.
Se ainda não foi tocado por essa febre, talvez esteja na hora de reconsiderar sua imunidade:
Mas não se engane…
algumas infecções não buscam cura.
Buscam permanência.