Luna Bela Morte
Scriptura aeternitatis obscurae.
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10/04/2026 20h00
A carne noturna e o papel que sangra

Há noites em que o mundo não pede poesia.
Pede gordura, pressa… e algum tipo de esquecimento.

Hoje foi assim.

 

Saí quando a cidade já exalava aquele hálito quente de asfalto cansado. O Rio, sujo e pulsante, parecia me observar com seus olhos de neon trêmulo e promessas quebradas. Há uma beleza estranha nesse caos; quase indecente. Como um corpo que não se lava porque sabe que o perfume da ruína é mais honesto que qualquer pureza.

Parei diante de um carrinho de cachorro-quente.

Nada mais mundano. Nada mais humano.

O pão macio demais, a salsicha mergulhada em vapores suspeitos, os molhos escorrendo como se tivessem algo a confessar. Dei a primeira mordida como quem aceita um pacto pequeno, desses que não mudam o destino… mas tornam a noite suportável.

Enquanto mastigava, observei.

Casais discutindo sem se tocar. Risadas que soavam ocas demais. Gente atravessando a madrugada como se fugir de si fosse um esporte cotidiano. E ali estava eu, com as mãos levemente sujas de mostarda, pensando em morte, em arte… e em vocês.

Sim, vocês.

Porque mais cedo, antes de me render a esse ritual quase profano, passei horas embalando livros. Poesia para ser lida no cemitério repousava na mesa como um conjunto de pequenas lápides portáteis. Cada exemplar, um fragmento daquilo que escrevi quando a lucidez já não era mais uma opção.

Enviei mais alguns hoje.

Eles partem em silêncio. Como cartas que sabem demais.

Gosto de imaginar o percurso. Estradas, centros de distribuição, mãos desconhecidas. Meu livro viajando pelo país como um corpo sem dono, prestes a encontrar quem tenha coragem de abri-lo. Há algo de perversamente belo nisso… essa entrega voluntária daquilo que me corrói.

E então volto para a rua, para o cheiro de carne barata e pão quente, como se fosse possível equilibrar essas duas existências.

Mas não é.

Nunca foi.

Enquanto terminava o cachorro-quente, senti aquele gosto agridoce que não vem só da comida. Vem da consciência de que tudo é transitório demais. O prazer. A fome. A própria presença. E talvez seja por isso que escrevo; para fixar no papel aquilo que o mundo insiste em dissolver.

Você que já comprou meu livro… saiba que há mais de mim ali do que neste corpo que vaga pela cidade. Há noites inteiras, cicatrizes inteiras, pensamentos que eu jamais diria em voz alta.

E ainda assim, você abriu espaço para isso na sua vida.

Isso me intriga.

E, de forma estranha, me aproxima.

Se o correio é o mensageiro, então você é o cúmplice. Porque aceitou receber algo que não promete conforto. Apenas verdade… e talvez um pouco de ruína.

Voltei para casa com o gosto da rua ainda nos lábios e a sensação de que pertenço a esse limbo entre o banal e o abismo. Entre o cachorro-quente da esquina e os versos que enterram quem os lê.

Talvez seja esse o meu lugar.

Talvez seja daqui que escrevo melhor.

Se ainda não atravessou esse território, o caminho permanece aberto; mas não finja inocência ao entrar:

👉 aprendizdastrevas.com

 

Algumas leituras alimentam.

Outras… devoram.

Publicado por Luna Bela Morte
em 10/04/2026 às 20h00
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