
8 de abril. Dizem que hoje se celebra o correio.
Curioso. Os vivos ainda confiam em envelopes para transportar aquilo que não conseguem dizer em voz alta. Como se o papel fosse mais corajoso que a própria garganta.
Acordei tarde, como convém a quem pertence mais à lua do que ao sol. Havia uma pilha de livros ao lado da mesa, esperando por destino (ou talvez por despedida). Cada exemplar de Poesia para ser lida no cemitério repousava como um pequeno corpo preparado para o ritual: capa fria, páginas silenciosas, promessas de inquietação costuradas em cada verso.
Passei a manhã (ou o que resta dela, quando se vive fora do tempo comum) embalando esses fragmentos de mim.
É um gesto quase íntimo.
Minhas mãos tocaram cada livro como quem sela uma carta perigosa. Não são apenas páginas. São confissões disfarçadas. São pedaços de noites que sobreviveram a mim e agora partem para assombrar outros.
Enquanto escrevia os endereços, senti algo que raramente admito: uma estranha forma de afeto. Não aquele afeto domesticado, confortável, que as pessoas ostentam como se fosse medalha. Mas algo mais denso. Uma conexão silenciosa com aqueles que, em algum lugar deste país vasto e inquieto, decidiram me ler.
Você que comprou meu livro... saiba disso.
Há algo de profundamente perturbador em saber que minhas palavras irão repousar na sua casa. Talvez na sua mesa de cabeceira. Talvez sob a luz fraca de um abajur, enquanto o resto do mundo finge dormir. Você não comprou apenas um livro.
Você aceitou um convite.
E convites como esse raramente são inocentes.
O correio… essa invenção quase obsoleta… ainda carrega uma beleza que o mundo digital jamais será capaz de imitar. Há um tempo entre o envio e o recebimento. Um intervalo. Uma espera.
E é nesse intervalo que algo acontece.
O livro viaja.
Cruza cidades, estradas, mãos desconhecidas. Dorme em sacos escuros. Desliza por este país como um segredo embalado. E, enquanto isso, você espera. Talvez sem perceber que já começou a ser transformado antes mesmo de abrir a primeira página.
Hoje, ao sair para enviar mais exemplares, observei as pessoas ao redor. Rostos apressados, vidas repetidas, olhos cansados de não ver.
Pensei em quantas histórias nunca chegam a lugar algum.
E em como é estranho que as minhas (feitas de morte, desejo e silêncio) insistam em encontrar caminho.
Talvez porque a sombra, quando chamada pelo nome certo, sempre responde.
Voltei para casa com menos livros, mas com a sensação de que algo em mim havia sido distribuído pelo mundo. Fragmentado. Espalhado. Vivo, de uma forma que a carne jamais sustenta.
Se você já recebeu o seu exemplar… eu gostaria de ver. Sim, eu quero essa imagem. Quero saber onde minhas palavras pousaram. Quero testemunhar o instante em que o livro deixa de ser meu e começa a ser seu.
E, quando terminar a leitura, me diga (mas me diga com honestidade cruel) o que ele fez com você.
Algumas experiências não pedem opinião.
Pedem sobreviventes.
Se ainda não atravessou esse limiar, o caminho permanece aberto:
Mas entenda…
nem toda correspondência chega intacta.
Algumas carregam dentro de si aquilo que, uma vez lido, nunca mais permite retorno.