
Vim me esconder onde o mundo fica mais honesto: na imensa dobra do mar que abraça Angra dos Reis. Aqui, entre ilhas que se espalham como segredos, minha rotina virou a respiração das ondas (lenta, inevitável, necessária). Angra é esse arquipélago de encanto bruto; dizem que são 365 ilhas, uma para cada dia que eu pretendo devorar com frases.
A maior delas, Ilha Grande, é quase um continente de verde e silêncio; mata atlântica intacta que desce até praias que guardam histórias e trilhas antigas. Andar por estas areias é ouvir o mundo em sua versão original: sem filtros, sem urgência de feeds.
O mar aqui não é apenas cenário: é arquivo. Águas translúcidas, enseadas protegidas e pontos de mergulho que guardam um zoológico azul; peixes, corais, e um silêncio submerso que, quando emerges, te dá a clareza de que é preciso escrever com coragem. As ilhas exigem barco, paciência e olhos abertos; as melhores passagens acontecem entre embarcações que cortam o arquipélago, parando em praias isoladas onde a alma pode finalmente se ouvir.
Vim para férias, sim; e para um isolamento que chamo de espiritualidade prática: dias em que substituo notificações por marés, compromissos por leituras longas e reuniões por longas caminhadas por trilhas que cheiram a serração e a história. Não é fuga; é afinação. É o tipo de solidão que prepara a carne para a escrita. Aqui, a cada tarde, apanho frases como quem colhe sal em pote: devagar, com respeito.
Também trabalho. Trabalho muito. Este retiro é o laboratório do meu novo livro: revisões, rasgos, experimentos em forma de parágrafo, noites em que o couro do texto lateja como ferida que precisa ser lapidada. Por isso ando meio ausente das redes; porque escrever um livro exige a imersão que o algoritmo não permite. Peço paciência e prometo voltar com algo que valha cada ausência. É uma surpresa grande; prefiro guardar o feitiço até que esteja pronto para arder nas mãos de vocês.
Se sentires saudade ou curiosidade, deixo as sombras da minha página aberta: lá posto recados esparsos e, quando for o tempo certo, a novidade saltará para fora como criatura que não mais quer se esconder. Para acompanhar sem pressa, o caminho é: aprendizdastrevas.com
Volto a caminhar agora. A maré chama e há uma frase enterrada na areia, esperando que eu a liberte.
— Luna Bela Morte