Luna Bela Morte
Scriptura aeternitatis obscurae.
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04/12/2025 13h31
O brilho rubro no espelho que não dorme

 

Escrevo com a sensação incômoda de que alguém respira atrás de mim. Não há ninguém, claro. Só o silêncio, meu velho cúmplice, e o perfume das lírios que insisto em manter ao lado da escrivaninha, mesmo sabendo que eles murcham rápido demais perto de mim. Talvez seja culpa da minha pele fria, talvez seja outra coisa. Não ouso perguntar ao espelho.

 

Hoje senti uma urgência estranha. Uma necessidade pulsando sob a pele, como se minhas próprias veias sussurrassem um alerta. Não era dor. Era um chamado.

 

Eu tinha acabado de fotografar algo para registrar meu humor da noite, e quando me aproximei daquele espelho redondo, as flores ao redor pareciam expelir um brilho rubro impossível, como se sangrassem luz. Minha cabeça repousou sobre os braços sem que eu percebesse quando ou porquê. Estava exausta. Estava inquieta. Estava sendo observada.

 

Ao erguer o rosto, vi meus olhos refletidos. Mas o reflexo não era meu.

 

A versão no espelho mantinha a mesma posição, o mesmo ângulo, o mesmo contorno de rosto... mas seus olhos não seguiam os meus movimentos. Eles aguardavam. Com uma paciência antiga demais para pertencer ao mundo dos vivos.

 

Eu pisquei. Ela não.


Eu respirei fundo. A criatura no vidro permaneceu imóvel, como uma pintura que se recusa a envelhecer.

 

O ar ficou pesado. A flor mais próxima do espelho perdeu suas pétalas em silêncio, como se não ousasse morrer fazendo barulho. A cada pétala caída, o brilho vermelho nos olhos do reflexo se intensificava.

 

Por um momento, senti que minha própria face começava a perder temperatura, como se o espelho estivesse sugando algo essencial. Toquei minha pele. Estava fria. Gelada. Como se tivesse sido moldada pela madrugada.

 

Foi então que ouvi a voz.

 

Não veio do quarto.

 

Veio de dentro do espelho.

 

Um sussurro suave, feminino, quase familiar:

“Eu sou a que escapa de você, Luna.”

 

A frase bateu no meu peito como uma unha arranhando o lado de dentro das costelas. Eu recuei, mas minhas mãos permaneceram apoiadas no vidro, presas a ele como se fosse carne viva. O reflexo sorriu. Não aquele sorriso humano, torto e breve. Mas algo longo, fino, rasgado demais para ser natural.

 

“Eu sou a parte que você enterrou.”

 

As luzes do quarto fraquejaram. O perfume dos lírios se transformou em um cheiro metálico, semelhante ao ar de uma igreja abandonada. A versão no espelho inclinou a cabeça, e dessa vez, senti minha nuca acompanhar involuntariamente. Como se um fio invisível puxasse meus ossos.

 

Eu quis gritar. Não consegui.

 

Os olhos dela brilharam. Como brasa sob pele.

 

E então tudo aconteceu de uma vez: uma das flores caídas queimou por dentro, iluminando a borda do espelho. A imagem me puxou. Não fisicamente... mas mental e visceralmente. Vi flashes daquilo que escondi de mim mesma: a solidão que me moldou, a escuridão que sempre acolhi quando o mundo se tornava raso demais, a fome silenciosa pelas histórias que ninguém ousa contar.

 

Vi versões de mim que caminharam por corredores que nunca pisei.

 

Vi-mesmo-escrevendo o nome Bela Morte em paredes de tempos que não reconheci.

 

E a voz repetia:

“Eu sou o que você é quando a luz dorme.”

 

Quando finalmente consegui quebrar o transe, afastei-me do espelho com violência. O impacto do corpo contra o chão doeu, mas trouxe de volta o domínio dos meus movimentos. As luzes se estabilizaram. As flores retomaram sua forma, impecáveis. Tudo parecia normal.

 

Exceto eu.

 

Me aproximei novamente, com a cautela de quem toca uma ferida. Olhei no espelho. Meu reflexo me encarava, agora obediente, silencioso, imóvel como deveria ser.

 

Mas meus olhos...


Eles ainda carregam a brasa vermelha. Tão sutil que ninguém notaria. Exceto quem vive na penumbra.

 

Eu sei que não estou sozinha aqui dentro de mim.

 

E hoje aprendi algo que nunca deveria ter descoberto:

O espelho não mostra quem eu sou.
Mostra quem eu vou me tornar.

 

Passei o resto da noite tentando ignorar os tremores ocasionais que insistiam em percorrer meus dedos. Não era medo. O medo eu conheço bem. Isso era outra coisa, algo mais íntimo, como se eu tivesse trazido um segundo pulso sob a pele. Uma vibração estranha, ancestral, que não devia me pertencer.

 

Quando o dia finalmente ameaçou nascer, meus olhos começaram a arder. Não pela luz, mas por algo que pulsava dentro de mim, como se o brilho rubro que vi no espelho estivesse prestes a irromper do meu corpo. Eu estava exausta demais para resistir.

 

Fechei os olhos.

 

E o mundo apagou.

 

Acordei horas depois, com o sol cortando pela fresta da cortina. Minha cabeça repousava onde sempre costumo adormecer quando chego ao limite: perto dos meus livros, com o cheiro de papel seco e tinta me recebendo como um consolo antigo.

 

Por um instante, tudo parecia normal. Cruelmente normal.

 

O espelho estava lá, limpo, inofensivo. As flores estavam intactas. Meu reflexo, ao que tudo indicava, continuava apenas… meu.

 

O coração, ainda acelerado, sussurrou aquela dúvida incômoda que ninguém gosta de admitir:

E se tudo isso tivesse sido um delírio?

 

Sentei-me, esfreguei os olhos e senti a mente clareando, como se estivesse expulsando a névoa de um sonho pesado demais para sustentar acordada. Aos poucos, a memória da noite anterior começou a se desmontar como tinta dissolvendo na chuva. As palavras que a criatura dissera. O sorriso impossível. O calor escarlate das flores. O reflexo que não seguia os meus movimentos…

 

Nada disso parecia sólido agora. Nada disso parecia real.

 

Fui até o espelho, toquei a superfície fria e comum. Um vidro qualquer, refletindo apenas uma mulher sombria demais para estar acordada tão cedo. Meus olhos continuavam da cor habitual. Meu pulso tinha apenas um ritmo.

 

E, por fim, compreendi:

Eu tinha sonhado.


Sonhado tudo.


Cada contorno, cada sussurro, cada ameaça vestida de sombra.

 

Um sonho que parecia tão vívido que quase arrastou minha alma para dentro dele. Um sonho tecido com fragmentos de medos antigos e encantos proibidos. Um sonho que poderia ser apenas fruto da minha mente saturada de noites insones, flores murchando e histórias demais para guardar dentro do peito.

 

Senti o corpo relaxar. Ri sozinha. Que tolice sublime. Que terror delicioso. A imaginação, às vezes, é mais poderosa do que qualquer entidade além do véu.

 

Mas então notei algo.

 

No canto da mesa, onde eu jurava não ter deixado nada, havia uma única pétala caída.


Branca, sim…
mas tingida nas bordas por um vermelho tão leve, tão impossível, tão familiar…

 

Parei. A respiração falhou.

 

Aproximei os dedos, toquei a pétala. Era real. Suave. Morna.

 

E atrás dela, na superfície impecável do espelho, havia uma marca quase imperceptível, como um sopro que alguém tivesse deixado ali. Uma névoa fina, circular, que lembrava a forma exata da minha mão pousada na noite anterior.

 

Senti o gelo escorrer pela espinha. Não era terror. Era a verdade se erguendo devagar.

 

E aqui escrevo o que jamais direi em público, apenas neste diário que guarda minhas confissões mais íntimas:

Se foi um sonho, por que o espelho ainda me observa quando penso que não estou olhando?

 

Talvez eu tenha sonhado a criatura.


Talvez.

 

Mas a criatura, eu temo, não sonhou comigo. Ela estava muito desperta.

 

E continua.

Publicado por Luna Bela Morte
em 04/12/2025 às 13h31
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