
Hoje, escrevo não para o mundo, mas para esta página que me observa em silêncio, como um espelho feito de tinta e abismo. Preciso registrar algo que raramente ofereço a quem caminha pela superfície: uma fresta daquilo que sou. Não a máscara, não a figura que vagueia pelos corredores da noite, mas a autora que pulsa por trás do nome Luna Bela Morte.
Meu nome verdadeiro é Luna Alfonso Bellamont, herança inquieta de uma linhagem partida entre a névoa francesa de minha mãe e o fogo espanhol de meu pai. Quando cheguei ao mundo, deixamos a França como quem abandona um casulo, e fomos respirar os ventos antigos de Portugal. Ali cresci, moldada por ruas de pedra, bibliotecas silenciosas e pequenos jornais que receberam minhas primeiras palavras como se fossem confissões.
Em 2023, o destino me puxou pelas sombras até o Brasil. Vim apenas visitar o Rio de Janeiro e as ilhas que dormem ao redor de Angra dos Reis, mas acabei enfeitiçada por essa terra de mares inquietos e luas inquietantes. Fiquei.

E, no processo, deixei que meu sotaque português se dissolvesse devagar, como um perfume esquecido no ar.
Para que minha arte carregasse a marca exata da minha essência, criei um nome capaz de traduzir aquilo que pulsa por baixo da pele. Troquei o “Alfonso” por Bela, e o “Bellamont” por Bela Morte, lapidando meu próprio nome até ele sangrar poesia.
Assim me tornei quem sempre fui.
Nasci sob o signo de Aquário, condenada desde o primeiro sopro a habitar mais o reino das ideias do que o chão desgastado do real. Nunca aprendi a caber nas molduras alheias. Cresci com um pé na carne e o outro enterrado na fantasia, e talvez por isso o mundo sempre tenha me parecido estreito, como uma roupa que a alma recusa vestir. Prefiro os cemitérios, onde o ar é mais honesto. Neles, as histórias não mentem, e os mortos carregam uma serenidade que os vivos jamais dominarão.
Meu alimento sempre foi feito de trevas delicadas: capirotagens, sombras antigas, e tudo aquilo que a luz tenta fingir que não existe. Não sei ao certo quando me tornei essa criatura que transforma sentimentos em açoite e ternura em veneno, mas suspeito que foi por volta de 1990, quando abri os olhos para um planeta que já nascia com gosto de melancolia.
Provei do amor, aquele que dilacera com a precisão de uma lâmina ritualística. Provei também do ódio, que corrói como ferrugem devorando ossos. Carrego cada cicatriz como quem coleciona amuletos. Nada nelas é perda: tudo é matéria para o eterno renascimento.
O cinema de horror pulsa em minhas veias como sangue ancestral. Minha trilha sonora é feita de guitarras fúnebres e vozes espectrais: Gothic Rock, Gothic Metal, Doom, Black, Dark Ethereal, Dark Electro. São hinos para manter acesa a chama noturna que me acompanha desde sempre. Vivo entre páginas. Leio como quem respira. Escrevo como quem exorciza demônios. E, quase sempre, deixo que as palavras me devorem primeiro, para só então devolvê-las ao mundo.
O Rio de Janeiro me cerca com seu caos, mas minha essência é outra: sou filha do silêncio e da lua cheia. Uma solitária caminhante entre mundos, sempre à procura do ponto onde a sombra floresce. Colecionei títulos terrenos em Marketing e Jornalismo, mas minha verdadeira educação veio das madrugadas, quando o papel branco brilha como um altar e o resto do mundo dorme, ignorando os sussurros da escuridão.
Hoje enxergo meu trabalho como uma passagem. Uma ponte. Um portal onde ofereço, a quem ousar atravessar, a estranha beleza escondida no lado oculto das coisas. Sou poetiza, e a forma que mais me seduz é o soneto: preciso, ritualístico, como um feitiço. Nele, encontro ordem no caos. Nele, dou forma ao que, de outro modo, se perderia na noite.
Carrego duas obras (meus primeiros livros publicados) como quem guarda relíquias manchadas de memória:
O Aprendiz das Trevas, o e-book que desvela a origem de Castor, seu luto, sua fome de redenção, e o encontro com o nome proibido: Cael. Ali nasceu a linha invisível que costura tragédias e destinos.
E O Beijo e a Maldição, meu primeiro livro físico, onde Cael e Isolda dançam entre amor e perdição, e Castor mergulha ainda mais fundo na condenação que o perseguirá por toda eternidade. Uma narrativa gótica tecida com lua sangrenta, rituais proibidos e o peso das escolhas que queimam.
Se alguém me perguntar por que escrevo, direi apenas isto: porque a sombra floresce onde alguém decide olhar para ela sem medo. Porque o mundo é vasto demais para caber apenas na luz. Porque cada história é uma ferida que escolhi transformar em beleza.
E porque, no fim, este diário sabe o que poucos sabem: eu não escrevo para ser compreendida. Escrevo para existir.