
Hoje o sol se afogou no mar com a lentidão cruel de um amante que sabe que vai partir. Caminhei pela orla como quem percorre um reino interditado, com a barra do vestido bebendo a espuma negra que restava da maré. O pôr do sol estava vermelho, um vermelho tão denso que parecia derramado à mão por algum deus antigo que não sabe perdoar. Gosto quando o céu sangra assim. Me sinto menos estranha no mundo, como se o céu finalmente confessasse que também carrega suas sombras.
No horizonte, as gaivotas eram apenas silhuetas tortas riscadas contra a brasa do crepúsculo. A luz morria, mas não sem lutar. E eu… eu respirava como se cada sopro fosse uma carta de liberdade. Ali, naquela fronteira entre o sal e o silêncio, descobri que a beleza é sempre mais feroz quando nasce do fim de algo. Nenhuma catedral me ensina tanto quanto a praia no instante em que o sol sucumbe.
Coloquei nos fones uma trilha que combinava com essa coreografia de luz moribunda: “Red Water” do Type O' Negative. A melodia arrasta a alma para um lado onde o vento parece mais sábio, onde cada nota ruge como uma onda carregando memórias que ninguém ousa admitir. Recomendo que ouçam essa música enquanto leem este registro. Ela abre portas internas que o mundo prefere manter fechadas.
Quero que meu diário seja um porto para todos que carregam tempestades no peito. Então deixo um convite: escrevam nos comentários outras músicas que queimam devagar, outras canções góticas que transformam o pôr do sol em ritual. Quero ouvir o que move a alma de vocês, o que faz o sangue pulsar como o horizonte quando decide incendiar a própria existência.
Hoje o mar me disse que a escuridão também sabe ser bela. E eu acreditei.