
Sob a tormenta, minha pele finalmente respira.
Existe algo de profundamente visceral naquele instante em que decido não correr, não me proteger, não buscar abrigo algum. Deixo que a chuva desabe sobre mim como um veredicto antigo, uma sentença que eu mesma escolho aceitar. Talvez por isso eu a ame tanto: porque é um caos que não pede licença, mas que também não impõe joelhos no chão.
Dizem que a arte nasce do sofrimento. Mentem. Arte nasce da coragem.
Da ousadia de se colocar sob o céu carregado e dizer ao mundo: “eu não temo o escuro que me atravessa.” É fácil criar quando a vida oferece sol. Difícil é transformar trovão em palavra, relâmpago em poesia, enxurrada em verdade.
Quando a chuva começa, meu vestido negro se cola ao corpo como uma segunda pele, pesado, fiel, quase ritualístico. Sinto as gotas descendo pela coluna como pequenos presságios. As ruas vazias, as janelas fechando, os passos apressados… e eu ali, imóvel por dentro, infinita por fora.
É nesse instante que descubro aquilo que nenhum templo jamais me deu: vida.
É nesse instante que encontro o que palácios nunca puderam me oferecer: liberdade.
A água me invade como um chamado antigo, como se a própria noite quisesse limpar de mim tudo o que não sou, tudo o que tentaram me ensinar, tudo o que tentaram me transformar.
Na chuva, eu renasço sem pedir permissão.
Na chuva, eu me torno a mulher que sempre fui, antes que o mundo tentasse me domesticar.
E lembro, com a força de um relâmpago, que ninguém controla a alma de quem dança com tempestades. Que só quem enfrenta a fúria do céu de olhos abertos é capaz de fazer da própria existência um ato de criação.
Então permaneço.
Deixo a tempestade me atravessar como lâmina, como bênção, como renascimento.
E quando a última gota cai, eu sei: é de dentro da tormenta que a minha arte respira. É na fúria do céu que minha liberdade floresce. É sob a chuva que a minha alma escolhe viver.