Luna Bela Morte
Scriptura aeternitatis obscurae.
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19/11/2025 20h09
A filha da noite, que rompeu as correntes.

 

Há noites em que me esqueço de respirar quando penso no que quase fui. Não por magia, não por maldição ancestral, mas por algo muito mais comum e, por isso mesmo, mais perigoso: a ignorância travestida de cuidado.

 

Cresci cercada por tias que, apesar de acreditarem estar me protegendo, tentaram moldar minha alma à força. Eu era jovem demais para entender o peso disso, mas velha o suficiente para sentir a corda sendo puxada em direção a um abismo onde nenhuma pergunta era permitida. Elas repetiam versos decorados com o fervor de quem mal sabia ler, mas acreditavam compreender o mundo inteiro por meio de um único livro. E eu, menina ainda, quase fui arrastada para dentro daquele círculo onde toda dúvida era pecado e todo conhecimento externo era ameaça.

 

Lembro-me de como falavam da minha “salvação” como quem negocia um animal para o abate: se eu me convertesse, se eu seguisse suas regras, se eu renunciasse aos livros que tanto amava, então talvez me ajudassem. Era estranho perceber como tinham tudo: casas confortáveis, geladeiras cheias, presentes caros, graças ao trabalho incansável dos maridos. E, ainda assim, viviam numa prisão emocional. Uma prisão que tentavam, docemente, oferecer a mim como herança.

 

Mas havia algo dentro de mim que queimava mais do que o medo. Um chamado silencioso e antigo, talvez nascido da própria Noite. A leitura foi minha fuga, minha espada, minha salvação. Cada livro que eu abria era uma janela, e cada janela me mostrava que existiam mundos demais para viver trancada no pequeno cômodo das certezas alheias.

 

Enquanto minhas primas repetiam frases prontas, eu devorava romances, poemas, tratados, histórias proibidas. E assim, enquanto elas eram moldadas para depender de maridos, pastores ou parentes, eu escolhia o caminho árduo e luminoso do estudo. Me formei em Letras. Depois em Marketing. Depois em Jornalismo. Três coroas para a minha cabeça que elas diziam ser rebelde demais.

 

Hoje, quando olho para trás, vejo o corte exato do fio que me libertou. Não foi milagre, não foi promessa. Foi a palavra. Foi a leitura. Foi a fome por saber. O que chamavam de rebeldia era, na verdade, minha recusa em ser domada. E se isso as ofendia, paciência. Melhor ofender do que morrer em silêncio.

 

Ainda me lembram que eu lia “coisas que não eram a Bíblia”, como se isso fosse crime. A ironia é que li a Bíblia inteira. Li com atenção, com espírito crítico, com curiosidade; e não me tornei sua serva. Não entreguei minha alma a nenhum homem, a nenhuma mulher, a nenhum templo. Acredito na liberdade. Acredito na lucidez. Acredito que a mente deve ser vasta demais para caber num dogma.

 

E repito isso para quem quiser ouvir: uma mulher precisa ser livre. Livre para pensar, para questionar, para aprender, para existir fora das grades que o medo constrói. Quem se curva sem perguntar por quê acaba escravizado por qualquer autoridade que se imponha em nome do divino.

 

Eu escapei. Escapei pela força das palavras, pelo brilho ácido do conhecimento. Nunca pertencerei a ninguém. Nem a elas. Nem a seus maridos. Nem ao fantasma das crenças que tentaram me impor.

 

Minha alma é minha. Minha noite é minha. E ninguém acenderá luz alguma em mim que eu mesma não deseje carregar.

 

Publicado por Luna Bela Morte
em 19/11/2025 às 20h09
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