
Há noites em que o café tem o gosto exato do presságio. Hoje, enquanto o vapor subia da xícara como um espírito recém-desperto, senti o chamado familiar das páginas que venho tecendo para minha saga Ordo Umbrae. Não é apenas um conjunto de livros; é um território espiritual onde deixo que minhas próprias sombras caminhem, observem, sangrem e sussurrem. Cada palavra que escrevo nessa obra me atravessa como um ritual, um sacramento invertido cujos ecos continuam por horas depois que fecho o manuscrito.
Venho trabalhando nesses textos com uma devoção que beira o profano. Talvez porque Ordo Umbrae não nasceu de um momento impulsivo, mas de anos de pesquisa, noites inteiras de estudo, leituras antigas sobre vampirismo, simbologia religiosa, magia proibida e as mitologias que se infiltram na pele da humanidade. Passei incontáveis horas mergulhada em grimórios digitais, manuscritos, fóruns esquecidos e artigos acadêmicos que tratam das sombras com surpreendente seriedade. Cada detalhe da saga é costurado com esses fios: o que é lido, o que é sabido e o que apenas ouso sentir.
O primeiro volume, O Aprendiz das Trevas, já pulsa livre para quem desejar conhecê-lo. Disponível gratuitamente em minha página, aprendizdastrevas.com, ele apresenta Castor, essa alma ferida que perdeu Elena para a morte e para o destino. Castor sempre foi, para mim, a metáfora viva do luto que vira loucura; e do amor que se corrompe lentamente, como uma vela consumida pelo próprio pavio. Sua chegada ao mosteiro, suas penitências silenciosas e a descoberta do nome proibido, Cael, são apenas o prelúdio de um canto mais profundo, mais trágico. Ele é a primeira porta do labirinto. Quem entra por ela não volta igual.
Depois, em O Beijo e a Maldição, retornei ao mesmo mosteiro, mas por outra porta. Ali habita o nascimento da tragédia de Cael e Isolda. Ele, tocado pela fome das sombras. Ela, marcada pela audácia de amar o impossível. Entre rituais proibidos e traições acesas sob a lua sangrenta, o destino de ambos se enrosca como duas serpentes que jamais deveriam dividir a mesma respiração. Enquanto isso, Castor (sempre ele) busca nas páginas d’O Cântico da Balança (livro de ocultismo que criei, inspirado em um outro real) uma forma de enfrentar aquilo que ultrapassa a carne, o tempo e a misericórdia.
Confesso que escrever esses livros tem sido como atravessar um mosteiro em ruínas segurando uma vela prestes a se apagar. Mas é justamente isso que me move. Ordo Umbrae não pretende ser apenas uma saga gótica. Ela foi criada como um convite ao exílio, uma travessia para os reinos onde o amor e o horror caminham de mãos dadas. Não escrevo para entreter. Escrevo para provocar fissuras. Para acender velas vermelhas no cemitério do mundo.
E, no entanto, há algo ainda mais profundo: a certeza de que essa saga não termina aqui. Na gaveta, repousam silenciosos mais quatro manuscritos; todos em revisão minuciosa, todos exigindo de mim um cuidado quase cirúrgico. Há noites em que sinto que esses livros respiram. Às vezes penso ouvir seus capítulos se rearranjando sozinhos, como se a própria narrativa reclamasse seu formato final. Sei que ainda me dedicarão ao longo dos próximos meses, talvez até o último dia do ano que vem. Mas não temo a jornada. Aceito o pacto.
Meu novo livro; aquele que presenteará meus leitores góticos no início de 2026, também já começou a pulsar. Ele será um fragmento especial dessa mesma escuridão, um filho literário que venho preparando com zelo e devoção. Enquanto escrevo, sinto a presença de vocês, meus leitores, caminhando ao meu lado como sombras queridas. É por vocês que ascendo mais essa chama.
Agora, fecho este registro enquanto o café termina de esfriar. Há rituais a completar, capítulos a lapidar, destinos a selar. A saga continuará. E eu também. Sempre ao lado das trevas que escolhi cultivar.
Até a próxima noite.

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