Hoje, entre as estantes empoeiradas de uma livraria que parecia suspensa no tempo, encontrei uma jovem cujo olhar tinha a mesma melancolia dos corvos que rondam os meus pensamentos. Ela carregava nas mãos um volume de Edgar Allan Poe, como quem segura um espelho em que se reconhece a própria alma.
Aproximei-me em silêncio, e nossas palavras nasceram quase como um feitiço sussurrado. Falamos de poesia, da noite e de como o horror pode ser belo quando toca a essência do humano. Vi nela uma centelha rara; uma busca por algo que vai além da superfície. Sua voz tremia, mas não de medo, e sim de intensidade: aquela sede de quem já percebeu que a escuridão guarda mais verdades que a luz.
Enquanto ela folheava as páginas, percebi que não era apenas Poe quem a escolhia naquela livraria; era a própria noite que a abraçava, convidando-a para um caminho sem retorno. Seus olhos brilhavam como se compreendessem o peso e a doçura da morte, e eu, no íntimo, senti que ali estava alguém que poderia caminhar entre sombras sem jamais se perder.
Despedi-me com poucas palavras, mas a sensação ficou: talvez a jovem tenha levado mais que um livro naquela tarde; talvez tenha levado também uma fagulha da minha própria presença.
O destino, que nunca brinca em vão, talvez ainda nos cruze novamente. Afinal, como disse Poe, “tudo o que vemos ou parecemos é apenas um sonho dentro de um sonho”.