
Deitei meu corpo numa cama fria,
Pus flores de sal sobre o coração;
Mas sob meu peito alguma coisa ardia,
Como um fósforo oculto no caixão.
À meia-noite, a página vazia
Bebeu dos dedos minha confissão;
Meu morto, lembrando, ainda escrevia
Com tinta feita da própria escuridão.
O amor que eu julgava sepultado
Ergueu-se em mim, faminto e acordado,
E trouxe à boca o gosto da agonia.
Então vi meu reflexo, indiferente,
Sorrir no vidro, imóvel, consciente:
Meu cadáver sonhou que eu vivia.
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