
No espelho, a noite se abre e me reclama, escura,
e o vidro me devolve um segredo em seu olhar;
há uma voz que me veste de pó e de mistura,
e me ensina, sutil, as formas de ceder e falar.
Seus dedos são promessas que acendem a tortura,
fazem minhas veias pequenas tochas a brilhar;
me embalam num rito que mistura dor e loucura,
me convidam (e eu quero enfim aprender a sussurrar).
Algo em mim se ergue, e o mundo invade o espelho frio,
sopra a sombra um vago presságio, um arrepio;
Beija a língua da fera que em meu silêncio habita,
Atravessando a noite... em frenesi...
O monstro interno me toma com perfume e ardor,
vende-me pecado em trovas de lúcido ardor,
e no ápice do encanto, rasga o silêncio e grita:
Eu estou aqui... Eu estou aqui... EU ESTOU AQUI!